Anualmente
Uma tentativa de canção
Se eu tivesse a criatividade de Nando Reis e a interpretação musical de Marisa Monte, faria e cantaria a canção Anualmente, que existe sem existir na minha cabeça.
Ela seria uma espécie de versão 2.0 de Diariamente, uma das faixas do queridíssimo álbum Mais, da cantora, lançado em 1991. A música fala do cotidiano, da rotina, das coisas que acontecem e de como, de um jeito ou de outro, arrumamos soluções e respostas. Diariamente, coisas acontecem, e a gente, percebendo mais ou menos, interage.
Esse é um dos trechos de que mais gosto e que escuto só de fechar os olhos:
Para estourar pipoca, barulho
Para quem se afoga, isopor
Para levar na escola, condução
Para os dias de folga, namorado
Deixo o link para que você ouça a música antes da gente seguir, matando todos os estudiosos que pensaram sobre as formas de reter o leitor, kkk.
Mas, voltando: Deus não dá asa a cobra, e eu não vou pagar esse mico — no débito — agora. Anualmente é uma canção que seguirá existindo sem existir, pelo menos como música. Ainda assim, passa a habitar o mundo neste instante, a partir da sua premissa. Ela nasce da ideia de que, tal como existem coisas diariamente, há aquelas que, por sua vez, acontecem pontualmente ao longo do ano. Anualmente, portanto.
Se, por um lado, o dia a dia poderia nos dar uma sensação de maior percepção sobre o que está acontecendo, ajudando a lidar com aquilo — acorda, espreguiça, respira fundo, agradece por mais um dia, pinota da cama e por aí vai —, o esporádico pode sugerir algum esquecimento, apagamento, lapso.
Certamente, isso não é um imperativo. Desconfio que não aconteça, claro, com todas as coisas. Mas, acompanhando a vida financeira de um monte de gente, vejo que isso acontece justamente com os compromissos e vontades que estão pincelados ao longo de 365 dias.
Tem coisa que acontece todo ano, ainda que não todo dia.
Natal tem todo ano.
Aniversário todo ano tem.
Dia das mães, dos pais, dos avós, das crianças…
Conselho profissional, impostos e taxas também.
Vontades e necessidades com saúde e bem-estar idem.
Viagens e férias… ah, sim, deveríamos querer todo ano mesmo!
No planejamento financeiro, a música Anualmente é um pouco menos poética, diria, e se chamaria Gastos Sazonais, pois são aqueles que a gente deveria fazer algum esforço para não esquecer e tentar se programar. Por favor, ninguém me finja surpresa com o Natal!
Como essas despesas não acontecem todo mês, uma maneira simples de estimar esses valores é pensar que compromissos são esses, identificar seus valores, somá-los e dividi-los por 12. Assim, cria-se uma cota mensal — seja para guardar, seja para já pagar pela necessidade.
Para facilitar, vou criar hipoteticamente os sazonais da Marisa — que não é a Monte. Vem comigo:
Marisa organizou os sazonais dela uma tabelinha de Excel, mas que poderia ser uma listinha no caderno. Papel nunca envelhece, gente.
Na primeira coluna, a gente anota a quantidade de vezes que costuma ter a despesa no ano. Se der, já até vai colocando no calendário as datas para ir lembrando de casa uma delas.
Na segunda, o item em si.
Já na terceira, coloca-se o valor total a ser gasto com a despesa.
No caso da Marisa, a gente vê que ela tem um gasto anual de demandas que não acontecem no mês a mês nem diariamente, de R$ 26.980,00. Isso equivale, no exemplo dado, a dois salários mensais dela no ano. Imagina o atropelo não se organizar minimamente para lidar com essas atividades?
Como a sugestão é dividir o valor total dos sazonais por 12, fica desenhada uma prestação mensal de R$ 2.248,33. Eis o pulo do gato. A gente acabou de gerar a ideia de um autofinanciamento prévio à despesa.
Sabe os parceladinhos que se faz no cartão? Pronto! A lógica é a mesma, só que mais saudável, pois planejada, com menos riscos de descontrole e inadimplência. A gente financia para a gente mesmo, de maneira fracionada.
A recomendação é guardar esse valor mensal, formando uma espécie de reserva específica, ou gastá-lo, em todo ou em parte, no mês em que houver a necessidade.
Importante é, de certa maneira, sincronizar o ritmo das despesas, de modo a não assumir compromissos sazonais num valor muito maior que o mensal, sobretudo se essa reserva não tiver saldo suficiente.
No caso da Marisa, por exemplo, se a gente imaginar que ela está começando neste momento o planejamento, e este é o primeiro mês em que está guardando os R$ 2.248,33, é razoável pensar que, no mês seguinte, ela poderia pagar o IPTU à vista.
Por outro lado, não seria possível pagá-lo integralmente e, ao mesmo tempo, quitar todo o IPVA. Não haveria saldo, percebe? Então, é fundamental ajustar o ritmo da guarda e o calendário de execução das tarefas.
Curioso pensar que, passado um ano, Marisa, juntando mês a mês o valor, poderá sim ter saldo suficiente para o IPTU e o IPVA, podendo pagá-los de pronto, se assim quiser. Tudo com mais tranquilidade e liberdade de escolha.
Como me escrever me empodera de um jeito deliciosamente ainda estranho, ofereço essa estrofe para fechar a prosa:
Para o IPVA à porta,
Para o sítio com roça,
Para a saúde bem-disposta,
Anualmente



Geeeente! Eu amei seu texto e a musicalidade dele! Sinta-se mto empoderada mesmo e escreva sempre, s’il vous plaît!!!!🙏🏼🩵
Nenhum ano novo vira com mais paz do que aquele em que a caixinha dos sazonais está cheinha!