Estabilidade é boa mesmo quando a vida cabe nela
Nos últimos dias, tive a oportunidade de conversar com colegas jornalistas sobre como o planejamento financeiro pode vir a apoiar os concurseiros. Foram duas entrevistas: uma para o Diario de Pernambuco, outra para a Rádio Brasil de Fato, onde estou colunista, entrando ao vivo às terças, às 7h30. Os links já estão aí, mas queria seguir na prosa sobre este tema.
Tendo atendido quase 220 pessoas nesta carreira de planejadora, lembro bem de duas clientes que se enquadravam neste cenário de ‘concurseiras’.
Recentemente, um delas, já concursada federal, investiu uma nota numa mentoria. O desejo é realizar um determinado concurso que deve abrir no próximo ano. A ideia é prioritariamente ganhar mais. A gente viu, durante o processo de consultoria, que a vida cabe no que se ganha, mas, se quisermos um tantinho mais de coisas, o número aperta. Há ainda o objetivo de dar uma arejada por outra repartição. Uma vida dentro de um mesmo lugar tem hora que cansa, eu escuto isso demais de quem compõe os quadros públicos.
O investimento em si não impactou as finanças do mês, coube bem e está sendo pago com tranquilidade. Vale dizer que este ponto também nos lembra que um bom material adquirido é um acelerador no processo de construção de uma aprovação.
A outra cliente está esperando ser convocada. Foi aprovada entre as vagas, segue, portanto, na espera. A previsão era que o órgão a chamasse neste primeiro semestre, o que não aconteceu. A gente na consultoria já desenhou os cenários desse mudança de vida, com direito a troca de estado! Com isso, um novo ato da vida adulta: um contrato de aluguel. Financeiramente, para além do caminhão de mudança e da montagem de uma estrutura mínima de casa, esse será o item mais relevante no novo orçamento dela. Um grande boletão fixo.
Aqui tocamos num fato curioso: a felicidade imensa de ser chamada para o cargo efetivo revelou um aumento de gastos, o que, em outras linhas, também significará uma redução imediata do potencial de poupança desta pessoa.
Fizemos as contas. Respiramos. Celebramos. Vamos um passo por vez. “É o tal do concurso trampolim: você entra, toca a paz da estabilidade, mas segue estudando para outro que pague melhor”, me contou.
Esse tema dos salários no funcionalismo público é bem interessante. A imensa maioria das pessoas que não são funcionários públicas acha que toda a massa servidora é movida a supersalários.
Para se ter uma ideia, estima-se que menos de 1% do total do funcionalismo esteja nesse séquito padrão CEO de multinacional. Claro que o impacto orçamentário é imenso — não estou aliviando nesse sentido. Claro que o debate sobre a moralidade da criação de constantes artimanhas para quebrar teto constitucional vale também. Mas esses, amigos, não são nossos pontos. Voltemos.
Eu queria falar justamente dos outros 99% do funcionalismo. Para se ter uma ideia, mais da metade dos servidores públicos brasileiros ganha menos de três, — sim, três — salários mínimos. Essa cifra, cá pra nós, exige atenção à gestão orçamentária do mês. É fácil a vida não caber, sobretudo morando numa capital, com filhos e pais velhos. Quem nunca viu algo assim?
Talvez, seja mesmo um luxo não se preocupar com dinheiro no mundo e num país como o nosso. Eu não sei como é, confesso, pois ainda tenho minhas preocupações: um projeto de aposentadoria a avançar com mais força é o que mais me toma neste momento. No entanto, isso não me tira o sono. Me ronda, me pede atenção. Mas, pensando bem, talvez seja exatamente este o luxo que posso/ podemos desfrutar enquanto classe trabalhadora/ assalariada/ média: a atenção não virar doença, estresse, agonia. Lidar com o máximo de tranquilidade, fazendo o melhor possível, já é de um contentamento absurdo. Sim, tem planejamento financeiro aqui.
Acabei falando tudo isso porque lembrei de uma das falas da entrevista, ao comentar que pode ser importante, ponto de partida, o concurseiro ter noção do seu custo de vida e mirar em algo que o contemple com o salário do cargo que almeja. Casar a alegria de um trabalho estável é fundamental com a ideia de um trabalho que pague as contas. Do contrário, é risco o grande transformar uma conquista numa prisão.
Mari, você está falando da pessoa não fazer o concurso que pague menos do que ela ganha hoje, por exemplo? Não. Tá dizendo que não vale a pena buscar uma carreira pública? Muito menos. O que estou dizendo é que pensar sobre quanto se quer ganhar é também zelar por esse processo imenso de dedicação, cheio de gastos, concessões, renúncias e poucas certezas. É olhar de forma mais ampla a vida, os sonhos e desejos.
No fim, a pergunta Quanto você gostaria de ganhar pelo seu trabalho? é norteadora para concurseiros e não-concurseiros. E pasme: a imensa maioria das pessoas tem dificuldade de respondê-la pela ausência de clareza sobre quanto custa viver.


eu saí do corporativo sem calcular direito o que a minha vida custava. aprendi na prática e custou caro.
Muito, muito, muito bom